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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Social: O discurso da inclusão social

A Raça Brasil, nas questões sobre a inclusão social, usa o discurso da diversidade como algo positivo para a inclusão dos afro-brasileiros na sociedade, enfatizando nas suas publicações uma forma de modificar ou rearticular as associações que se referem ao negro no campo ideológico, passando do negativo para o positivo.

Hall (2003, p.193) argumenta que a luta ideológica consiste em obter um novo conjunto de significados para termo ou categoria já existente, de desarticulá-lo de seu lugar na estrutura significativa. Segundo Hall o termo "negro" pode ser contestado, transformado e investido de um valor ideológico positivo.

A matéria Igualdade na diferença (Edição 86 - Maio/2005) aborda um discurso que inclui a diferença racial como uma oportunidade de agregar valores dentro de uma empresa, onde segundo a matéria, "O novo conceito é: somos todos diferentes, com direitos iguais. Diversidade racial nas empresas aumenta a criatividade e traz novas soluções".

A matéria traz a carga da diferença como uma oportunidade para possibilitar uma produção diferenciada de conhecimento, diversas maneiras de enxergar, analisar, solucionar problemas e questões do cotidiano das empresas, indo além, esboçando um quadro das vantagens da diversidade onde aponta em um dos seus itens que as diferenças étnicas no ambiente de trabalho representa condição para o rompimento das desigualdades sociais e da violência presentes em nossa sociedade.

De acordo com Hall (2003, p. 195) o significado do conceito mudou resultado da luta em torno das cadeias de conotação e das praticas sociais que possibilitavam o racismo através da construção negativa dos negros. "Ao invadir o âmago da definição negativa, o movimento negro tentou "roubar o fogo" do próprio termo. Porque "negro" antes significava tudo que devia ser menos respeitado, agora pode ser afirmado como "lindo", a base da identidade social positiva, que requer e engrena respeito".

E esta publicação tem a finalidade de fazer da diferença racial algo positivo para que as empresas incluam o negro no mercado de trabalho, neste contexto, o discurso possibilita ao leitor a construção de sentidos, que de acordo com Eni Orlandi (2001) o discurso simbólico está na base da produção da existência humana .

O discurso da revista Raça sobre a diversidade como um movimento de inclusão é incorporado na matéria Oportunidade única (Edição 92 - Novembro/2005), falando da criação da TV da Gente o primeiro canal dirigido por negros que dará a devida visibilidade política, econômica e que, ainda, construiriam a autoestima positiva nas crianças e nos jovens afro-brasileiros.

Segundo a revista, a criação da TV da Gente dará a oportunidade dos afrodescendentes saírem da invisibilidade e da negatividade construída pelos meios de comunicação social, contando em seguida a história da imprensa negra surgida em 1915 como forma de reivindicar uma maior participação na sociedade. A revista ainda salienta que a TV irá contar com o desafio de rever posturas político-ideológicas ao ampliar a diversidade étnico-racial e cultural, positivando negros e outros não-brancos em seus programas e em suas direções, fazendo os negros ampliarem o seu poder de falar e de aparecer, saindo daquilo que foi próprio dos escravizados e dos mutilados da história - o silêncio e a invisibilidade.

Katharyn Woodward (2000) afirma que como processo, a identidade não ocorre sem a diferença, ela depende da diferença como um elemento formador do sistema de classificação e da demarcação cultural. A afirmação da identidade e da diferença racial e de gênero se dá através da relação entre o "nós" (aquilo que somos, a unidade, o idêntico) e os outros ( aquilo que não somos, o diferente, o desvio), numa luta pelo reconhecimento e legitimação na forma de ser representado, desta forma, a revista publica que a TV da Gente irá representar de forma positiva os negros. 

A Raça Brasil traz à tona novamente esta questão da diversidade como forma de inclusão social na matéria Diversidade um valor a ser cultivado pelas empresas (Edição 97 - Abril/2006) da seguinte forma: 

"Estabelecer políticas de recrutamento, promoção e remuneração que privilegiem mulheres, negros e outros grupos sociais que costumam sofrer discriminação e estejam sub-representados em seus quadros; favorecer a transposição de barreiras hierárquicas por meio de programas de integração que assumam o compromisso de tratar a diversidade como um valor que deve ser cultivado todos os dias; e orientar as campanhas de publicidade e marketing da empresa pelos princípios da diversidade" (Diversidade um valor a ser cultivado pelas empresas, Edição 97 - Abril/2006). 

A revista Raça afirma que esta medida irá promover justiça social e ajudar a construir um país melhor para todos. Como salienta John Thompson (2002), os meios de comunicação têm uma dimensão simbólica capaz de (re)elaborar a vida social, reorganizar os meios de produção e transmissão da informação pelo seu conteúdo simbólico, afirmando ideologias, ações e questionando as relações cotidianas. Para este autor, o poder de persuasão dos meios de comunicação pode se transformar em uma ação para se alcançar o objetivo desejado, intervindo no curso dos acontecimentos e em suas consequências.

Desta forma a revista usa como estratégia o discurso da diversidade como forma de inclusão social para os afrodescendentes, argumentando pelo discurso uma forma de alcançar uma sociedade justa e igualitária.

No entanto, como adverte Muniz Sodré (2002), a mídia não determina coisa alguma, apenas prescreve, o que nos permite vislumbrar a possibilidade da instalação da diferença identitária, mesmo se considerarmos a ação padronizadora dos meios de comunicação.

A busca pela inserção no mundo se faz a partir da confrontação de diferentes horizontes de significado. O indivíduo sente-se inserido à medida que desvela e vivencia significados atribuídos ao mundo por eles mesmo e pelos outros (Ezequiel Silva, 1996).

Para Moscovici (apud PAVARINO, 2003), a representação não se refere a algo estático e os indivíduos não são meros receptores passivos, mas sim participantes da elaboração de um pensamento social. Assim, a revista atribui as ações afirmativas e a responsabilidade social como forma de melhorar a vida dos afro-brasileiros, incluindo-os na sociedade onde há um discurso da afirmação racial para o fortalecimento da identidade entre os leitores, determinando positivamente um lugar na esfera social.

Como afirma Castells (1999) "a identidade de projeto, na qual os atores, com base nos materiais culturais disponíveis, constroem novas identidades, redefinem seu local social e buscam mudanças na estrutura social".

* Retirado da minha monografia de conclusão do curso em jornalismo: As representações Sociais na Ressignificação da Identidade Ética do povo negro: no caso da revista Raça Brasil. Defendida e aprovada na semana da Consciência Negra em 23 de novembro de 2006. 

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